The distinction between a sober atheist and a New Age atheist appears to hinge more on temperament than on philosophical principles, much like the 19th-century difference between atheist and agnostic.
Amigos estranharam a minha qualificação de Darwin como único grande cientista inequivocamente ateu, pois ele se considerava agnóstico. Eu confesso que tendo a apagar esse rótulo da minha cabeça, porque a distinção formal entre ateísmo e agnosticismo presumida por ele – a saber, que o agnóstico não sabe se Deus existe, enquanto o ateu sabe que Deus não existe – não tem correspondência na realidade, pois não tenho notícias de um único ateu famoso que pretenda provar a inexistência divina. Nem Dawkins, o ateu mais caricato da mídia, diz que isso é possível. Em Deus, um delírio, cap. 2, ele se consideram um ateu de facto, definido pelo mote: “Eu não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável, e vivo segundo a premissa de que ele não existe.” Assim, se levarmos em conta a distinção tradicional, o ateu mais famoso do mundo não é ateu, mas agnóstico.
Outra figura com postura similar é a de Bertrand Russell, com sua famosa analogia do bule voador. Podemos provar que não há um bule em órbita dando voltas ao redor do planeta? Não. Mas não temos nenhum motivo para acreditar que tal bule exista. Deus é como esse bule: não dá para provar que ele não existe, mas não é razoável acreditar que exista. Por isso, Russell se considerava agnóstico na teoria e ateu na prática.
Darwin
Se o termo “agnóstico” tem serventia, é para descrever as pessoas que de fato vivem em estado de dúvida quanto à existência de Deus. Charles Darwin (1809 – 1882) era filho de pai deísta e de uma unitarista. O deísmo consiste em negar toda religião institucionalizada e afirmar que Deus existe, porém não se importa com a humanidade. Sendo um inglês do século XVIII, o pai de Darwin muito provavelmente acreditava no Grande Arquiteto de Newton e dos maçons. O unitarismo é um novo sabor do arianismo, pois nega a divindade de Jesus e tem-no como um grande reformador moral, equiparável a Sócrates. Os unitaristas tomaram Harvard no século XIX, e Newton era secretamente arianista. Podemos então dizer que Darwin não teve um lar propriamente cristão; ainda assim, ele pensou muito em ser pastor anglicano e se casou com uma cristã fervorosa. Sem dúvida, Darwin passou por crises de fé, o que fez dele um agnóstico nesse sentido que descreve o estado psicológico.
Até onde se sabe, primeira vez em que ele se descreve como agnóstico é em 1879, aos 70 anos, numa carta privada a John Fordyce. Segundo relatos, em 1881 ele afirmou a um grupo de livres pensadores que nunca abandonou o cristianismo até os quarenta anos de idade (o que seria o ano de 1849). Teria ele abandonado o cristianismo e adotado as crenças do pai e depois abandonado até mesmo ela? Não conheço a resposta, mas é uma questão vital para a trajetória científica de Darwin, pois pelos rótulos de hoje Newton seria um criacionista ou defensor do design inteligente pelos rótulos de hoje.
O depoimento mais iluminador é o da sua autobiografia, redigida entre 1876 e 1881 para a sua família. Cito James Moore em “Mito 16: Que a evolução destruiu a fé de Darwin – até que ele se converteu novamente no leito de morte”: “Não disposto a abrir mão do cristianismo, ele havia tentado ‘inventar evidências’ para confirmar os Evangelhos, o que prolongou sua indecisão. Assim como sua carreira como ministro religioso havia sofrido uma lenta ‘morte natural’, sua fé também foi mirrando gradualmente. Mas não houve retorno após o golpe de morte. Sua hesitação se cristalizou em uma convicção moral tão forte que ele não via como alguém – nem mesmo [a esposa] Emma – ‘pudesse desejar que o cristianismo fosse verdade’. Pois se fosse, ‘a linguagem pura e simples’ do Novo Testamento ‘parece mostrar que os homens que não creem, e isto incluiria meu pai, irmão e quase todos os meus amigos, serão punidos por toda a eternidade. E esta é uma doutrina maldita.’ Em anos posteriores o teísmo original evidente em As Origem das Espécies se desgastou, e agora, ‘sem crença segura e persistente na existência de um Deus pessoal ou na existência futura como retribuição e prêmio’, Darwin sentia que deveria ‘se contentar em permanecer agnóstico’.” O pai de Darwin, marco para a crise de fé, morreu em 1848, um ano antes dos quarenta anos.
Darwin não morreu indeciso; ele morreu decidido de que o cristianismo era imoral porque mandaria seus entes queridos para o inferno. Se o termo “agnosticismo” se aplica, é para estabelecer um estado de ignorância após a negação de Deus tal como as religiões abraâmicas o reconhecem. Darwin sabe que a Bíblia está errada e que seu Deus não existe. Mas o que é Deus ou qual a verdade, ele não sabe.
Por certo, o descobrir o estado final de Darwin não é suficiente para descobrir o impacto de suas cambiantes convicções religiosas sobre seu pensamento, já que a redação de A origem das espécies (1859) durou duas décadas.
A origem do termo “agnosticismo”
Entre o início da descrença de Darwin e sua primeira autodeclaração como agnóstico, passaram-se nada menos que trinta anos. Uma razão simples para ele não ter usado esse termo cedo é que ele não tinha sido inventado. Pouco se menciona isso, mas “agnosticismo” é um termo com inventor e data de nascimento: em 1869, quando Darwin tinha já 60 anos, Thomas Henry Huxley (vulgo “Buldogue de Darwin”, avô de Aldous, o escritor apologista de abertura da mente via drogas, e de Julian, o eugenista fundador do WWF e primeiro UNESCO), inventou o termo numa reunião da Sociedade Metafísica, uma sociedade algo secreta da qual só participavam membros convidados. Darwin não era membro. O supracitado Bertrand Russell tinha um parente deísta que era membro: Lord Arthur Russell, sobrinho do Conde John Russell, avô de Bertrand. Arthur Balfour, da Declaração Balfour, também era membro. Eu não podia estar lá porque eu não era nascida, mas a Enciclopédia Britânica diz que a invenção ocorreu em tais circunstâncias, então eu acredito.
Uma definição pública do agnosticismo pelo vovô Huxley foi oferecida ao público pela primeira vez em 1889, na revista Popular Science (ou Pop Science), que existe até hoje. Ei-la: “O agnosticismo, de fato, não é um credo, mas um método, cuja essência reside na rigorosa aplicação de um único princípio. Esse princípio é de grande antiguidade; é tão velho quanto Sócrates; tão velho quanto o escritor que disse ‘Examinai tudo, retende o que é bom’ [1 Tess. 5,21]; é a fundação da Reforma, que simplesmente ilustrou o axioma de que a todo homem deveria ser dada uma razão para a fé que está nele; é o grande princípio de Descartes; é o axioma fundamental da ciência moderna. Positivamente, o princípio pode ser expresso assim: Em questões intelectuais, siga a razão até onde ela lhe levar, sem se preocupar com nenhuma outra consideração. E negativamente, assim: Em questões intelectuais, não ter a pretensão de que as conclusões que não são demonstradas ou demonstráveis são certas. Isto eu tenho por fé agnóstica, que, se o homem mantiver íntegra e incorrupta, não há de se envergonhar em olhar o universo face a face, independente do que o futuro lhe reserve.”
Por essa definição, não há nenhuma relação óbvia com uma postura perante à questão da existência divina, mas o conjunto do texto deixa implícita da negativa: de cabo a rabo, Huxley diferenciar a si próprio de Comte, e o agnosticismo da Religião da Humanidade comteana. Ele precisa se diferenciar porque são iguais a descrença em um Deus abrâmico, o cientificismo e o triunfalismo à la Fim da História. As diferenças, que Comte e os positivistas eram cientistas medíocres e criaram uma igreja de estrutura inspirada no catolicismo, ao passo que os agnósticos ingleses do XIX eram brilhantes e não tinham nenhuma intenção de fundar uma igreja.
Cabe apontar o sabor unitarista da retórica, que visa a traçar uma linhagem racionalista e contestadora que surge em Sócrates, atravessa a Bíblia e chega ao seu pináculo na atualidade, destituída de sobrenaturalidade. Outra figura importante do XIX inglês que a adotava era John Stuart Mill, em Sobre a liberdade. A esposa e colaboradora dele era unitarista.
E, é claro, vemos aí a oposição – talvez, sem precedentes históricos – entre ter espírito científico e crer em Deus. Podemos dizer que o Buldogue de Darwin, durante a vida de Darwin, ostracizou o deísmo da ciência, já que a Evolução era apresentada como refutação da existência do Arquiteto newtoniano.
Questão de termos
No frigir dos ovos, Thomas Huxley era o que hoje entendemos por ateu – e provavelmente também Darwin, já que ele escolheu o termo criado pelo amigo para designar a própria posição. O engraçado é que nem mesmo Comte se dizia ateu. Ao que parece, o espírito do ateísmo e do cientificismo eram generalizados na intelectualidade do XIX, mas a disposição a assumir o rótulo se limitava a radicais como Friedrich Engels, Karl Marx (cuja dissertação, de 1841, foi sobre Demócrito e Epicuro, pais do materialismo) e Mikhail Bakunin. Provavelmente, a diferença entre os termos “ateu” e “agnóstico” naquela época se limitava à disposição de chocar a sociedade. Nem os positivistas franceses, nem os evolucionistas ingleses, queriam chocar. Já os comunistas e anarquistas queriam.
Com o tempo, no XXI, ser ateu não choca mais ninguém; nos círculos mais estudados, é a norma. Daí a disposição a enterrar o termo “agnóstico”, ou reservá-lo às pessoas que estejam num real estado de dúvida.
Outra questão semântica é o que entendemos por Deus. Há quem diga coisas como “para mim, Deus é energia” – daí a gente se pergunta se faz sentido dizer que Deus é isso que faz o meu ventilador girar e depois aparece na conta de luz. Nos Estados Unidos, um dos poucos países ocidentais no qual ainda é possível chocar dizendo-se ateu, é comum as pessoas se rotularem como “spiritual, but not religious” (espiritual, mas não religiosa), e tipicamente essas pessoas vão atrás de esoterismos – cristais, horóscopo, meditação zen, gurus tão feios quanto tarados etc. – sem aderir a nenhuma religião particular. Isso só pode ser herança do deísmo, até porque a maçonaria tem uma grande importância na formação do país e é deísta. Não à toa, esse deísmo do século XXI pode se confundir com o ateísmo, como os seus predecessores renascentistas, os libertinos. Sam Harris mesmo é um ateu adepto do New Age.
Agora, não deixa de ser uma ironia histórica que um dos inventores do termo “psicodelia” (do grego, “revelação mental”) seja neto do inventor do termo “agnosticismo”. Parece que uma parcela da humanidade não desiste de experiências extáticas e de revelações mesmo quando abandona a transcendência divina e, assim passa a procurá-la na matéria. A diferença entre um ateu sóbrio e um ateu New Age parece ser mais uma questão de temperamento do que de filosofia, assim como a diferença entre ateu e agnóstico no século XIX.
